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Trojany faz da repetição uma linguagem em “Água Escura Natureza Elétrica”

Foto do escritor: Alek Martins
Alek Martins
24 de ago.
6 min de leitura

Em sua primeira exposição individual, a artista reúne memória, tecnologia, ancestralidade e matéria para apresentar uma obra amadurecida ao longo de mais de uma década

Por Alek Martins


reprodução: Instagram @_trojany
reprodução: Instagram @_trojany

Trojany é uma artista repetitiva. A afirmação, neste caso, reconhece uma das maiores qualidades de seu trabalho. Ela retorna às mesmas estruturas, refaz perguntas, acompanha símbolos e permite que suas inquietações adquiram novas formas com o passar do tempo. Sua repetição não nem chega a ameaçar redundância. É caminho, insistência e aprofundamento.


Essa continuidade orienta “Água Escura Natureza Elétrica”, primeira exposição individual da artista cearense, em cartaz na Casa do Barão de Camocim, no Centro de Fortaleza. Com curadoria de Rodrigo Lopes, a mostra reúne obras desenvolvidas ao longo de mais de uma década e apresenta uma trajetória construída entre memória familiar, natureza, tecnologia, ancestralidade e transformação territorial.


“O contato com parte desse pensamento veio ao estudar com Trojany no curso de Introdução às Artes Visuais, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará. Durante essa experiência, foi encantador e confortante perceber que a barbárie artística, a crítica às instituições e a procura por uma maneira genuína de criar existem para além das experiências inerentes da periferia.”


A barbárie, aqui, não significa ausência de elaboração. Ela aparece como liberdade diante das convenções que determinam o que pode ser considerado arte, quais materiais merecem ocupar um espaço expositivo (e se deve) e quais histórias devem ser preservadas. Trojany conhece as estruturas da arte e, justamente por isso, encontra maneiras próprias de atravessá-las.

Essa postura está presente em toda a exposição.


reprodução: Instagram @_trojany
reprodução: Instagram @_trojany

UMA HISTÓRIA CONTADA PELAS ESCOLHAS


“Água Escura Natureza Elétrica” ocupa os dois andares da Casa do Barão de Camocim com fotografias de família, imagens do século XIX, vídeos, registros de performances, objetos encontrados, sites, bandeiras-palavras e animais taxidermizados. Tela, argila, areia, sal, rastros de árvores e aparelhos eletrônicos surgem como partes de um mesmo vocabulário.

A variedade de linguagens poderia produzir uma exposição dispersa. O que acontece é o contrário. Existe uma coerência entre as obras porque todas parecem nascer da mesma necessidade de compreender o território, o tempo e as formas pelas quais uma memória continua existindo e sendo construída.


A história de Trojany está bem colocada na exposição. Ela pode ser percebida nas escolhas curatoriais, nos materiais e nos símbolos que reaparecem durante o percurso. Nada parece ter sido convocado somente pela aparência. Cada elemento conserva um vestígio de experiência, pesquisa ou deslocamento.


Nascida em Icó, em 1993, e vivendo entre sua cidade natal e Fortaleza, Trojany pesquisa as raízes negras e indígenas do território onde cresceu. Seu trabalho observa as transformações da vida rural, os efeitos da colonização e os projetos de modernização que alteraram a paisagem cearense.


A água conduz esse pensamento. Ela aparece na seca, nos açudes, nas barragens, nas enchentes, no granizo e nos ritos cotidianos. Carrega lembranças e modifica a vida ao seu redor. Em vez de servir como ilustração da paisagem, torna-se um arquivo.


reprodução: Instagram @_trojany
reprodução: Instagram @_trojany

A SENSIBILIDADE COMO TECNOLOGIA


Existe uma sensibilidade muito precisa na maneira como uma tela conversa com a argila. A areia e o sal dividem espaço com aparelhos eletrônicos. A matéria orgânica encontra o ambiente virtual. O animal taxidermizado permanece próximo da imagem digital.


Essas aproximações não procuram produzir estranhamento gratuito. Elas revelam uma percepção ampla e complementar da tecnologia.


Na obra de Trojany, a tecnologia não começa com o computador. Ela está presente nas maneiras ancestrais de observar a natureza, trabalhar a terra, preservar um corpo, transmitir uma lembrança e interpretar os ciclos da água. A taxidermia também é uma tecnologia. A barragem é uma tecnologia. O arquivo familiar, o barro moldado, a fibra óptica e o site pertencem a diferentes momentos de uma mesma história humana de invenção e permanência.


A exposição encontra sua força nesse convívio. O ancestral não é tratado como imagem congelada do passado. Ele permanece ativo, modifica-se e participa do mundo cibernético. A internet também deixa de representar uma realidade abstrata. Seus cabos atravessam terras, rios e leitos secos. Toda circulação digital depende de uma estrutura material, de energia e de território.


Trojany percebe essas relações com uma naturalidade rara. Seu trabalho não precisa explicar constantemente por que o barro pode conviver com uma tela eletrônica ou por que uma ave taxidermizada pode participar de uma discussão sobre virtualidade. As obras permitem que esses elementos existam juntos.


Há algo de avançado nessa elaboração. Não por antecipar uma tendência estética, mas pela capacidade de reconhecer tecnologias que já existem há muito tempo e continuam ausentes de parte das discussões sobre inovação. Trojany olha para a ancestralidade como uma forma complexa de conhecimento.


Sua sensibilidade também é técnica. Está na seleção dos materiais, no domínio das ferramentas e na forma como cada linguagem preserva sua singularidade sem romper a unidade da exposição.


DORMIR COMO VINGANÇA


Entre as imagens mais poderosas da mostra está o próprio corpo da artista dormindo durante uma ação artística. O sono passa a ocupar o espaço expositivo como presença, obra e protesto.

Em uma sociedade que mede o valor de uma pessoa por sua capacidade de produzir continuamente, dormir pode assumir uma dimensão política. O repouso interrompe a lógica da disponibilidade permanente. O corpo adormecido deixa de responder às exigências externas, escapa momentaneamente da vigilância e recupera o próprio tempo.


A obra sugere que dormir também pode ser nossa vingança.

Esse gesto aparentemente simples concentra parte importante da pesquisa de Trojany. O corpo não está separado do território, da memória ou das tecnologias que atravessam a exposição. É nele que o cansaço se acumula, que os ritmos da natureza são percebidos e que as pressões do mundo contemporâneo deixam suas marcas.


Ao dormir, a artista não desaparece. Sua presença torna-se ainda mais evidente. Ela reivindica o repouso em um espaço dedicado à observação e transforma uma necessidade elementar em linguagem.


O RETORNO À CASA DO BARÃO


A Casa do Barão de Camocim também faz parte dessa história. Em 2013, durante sua participação no Curso de Realização em Audiovisual da Vila das Artes, Trojany viveu ali uma de suas primeiras experiências com as artes visuais e com a criação de uma instalação.


Naquele período, o edifício enfrentava abandono e esquecimento. Mais de uma década depois, a artista retorna ao mesmo espaço para realizar sua primeira exposição individual. A Casa foi restaurada e passou a receber atividades de pesquisa, formação e circulação artística. Trojany também retorna transformada, carregando anos de estudo e produção.


Esse reencontro possui uma força particular. O edifício deixa de funcionar somente como local de exibição e participa da obra como testemunha. A história da artista e a história recente da Casa do Barão se cruzam em seus processos de recuperação, reorganização e permanência.

A repetição reaparece. Trojany volta ao mesmo lugar, mas o tempo alterou/preservou todas as partes desse encontro.


UMA EXPOSIÇÃO NECESSÁRIA PARA FORTALEZA


É uma honra que “Água Escura Natureza Elétrica” aconteça em Fortaleza. Também é importante que o público possa acessar gratuitamente uma pesquisa dessa dimensão em um equipamento cultural da cidade.


O cuidado com a acessibilidade merece atenção. A exposição foi concebida com recursos destinados às pessoas com deficiência e prevê uma versão virtual acessível. Essa preocupação está de acordo com o próprio pensamento apresentado nas obras. Se a mostra discute circulação, memória e permanência, é coerente que também pense sobre quem consegue entrar, compreender e participar dessa experiência.


A acessibilidade não surge como um complemento burocrático. Ela faz parte da sensibilidade que organiza o projeto.


Ver uma artista cearense ocupar a Casa do Barão com tamanha excelência também amplia nossa percepção sobre aquilo que está sendo produzido no estado. Trojany apresenta uma obra consciente de sua história, segura de seus métodos e livre para reunir linguagens que muitas vezes são estudadas separadamente.


“Água Escura Natureza Elétrica” registra uma trajetória e confirma a grandeza de uma artista. Cada obra preserva a intimidade de sua origem enquanto participa de discussões amplas sobre território, colonialidade, infraestrutura, corpo e tecnologia.


Nada na exposição permanece isolado. A água conduz dados e lembranças. A areia encontra a eletricidade. O animal preservado encara o futuro. O corpo descansa. A Casa recebe novamente a artista que ajudou a formar.


Trojany retorna às suas estruturas porque ainda existem profundidades a descobrir dentro delas. Sua repetição movimenta, reorganiza e transforma. É assim que sua obra permanece viva.


Serviço

Exposição: “Água Escura Natureza Elétrica”, de Trojany

Curadoria: Rodrigo Lopes

Local: Casa do Barão de Camocim — Rua General Sampaio, 1632, Centro, Fortaleza

Entrada: gratuita

Classificação: livre

Acessibilidade: recursos disponíveis para pessoas com deficiência

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