"Dominante das Ruas": Davinci ocupa o palco do TJA com Macumba Jazz, rito, referência, linguagem e visão de futuro.
- Alek Martins

- 21 de jun.
- 2 min de leitura
Na noite do último dia 7, o Theatro José de Alencar recebeu "Macumba Jazz", espetáculo do artista sonoro Davinci que está entre o percurso de disseminação do disco "Dominante das Ruas". A apresentação se estabeleceu como uma experiência de imersão estética e espiritual potente, onde música, ritual, performance e linguagem urbana encontraram um ponto de convergência raro na cena cultural brasileira.

Antes de qualquer virtuosismo técnico, o espetáculo impressiona pelo respeito com que seus símbolos são tratados. Em um momento em que elementos das religiões de matriz africana frequentemente são reduzidos a recurso meramente estético, "Dominante das Ruas" faz o movimento contrário: reverencia suas referências estruturais, reconhece suas origens e as coloca no centro da conversa. O ritual iniciado por Mãe Bia não surge como prólogo, mas como fundamento simbólico de toda a obra.
Mesmo operando a partir de uma estrutura relativamente enxuta, o espetáculo lembra que obra não depende necessariamente de grandiosidade. A tecnologia sonora empregada, especialmente o trabalho de mixagem vocal ao vivo, foi um dos grandes diferenciais da noite. Cada camada, dos beats as percussões, passando pelo saxofone e pelas texturas eletrônicas, encontraram seus espaços com clareza, permitindo que a complexidade sonora da Macumba Jazz alcançasse a plateia sem perder força, significado ou delicadeza.

A participação de Nego Gallo merece destaque especial. Sua presença no palco não apenas adiciona peso histórico e político ao espetáculo, mas materializa um encontro entre linguagens artísticas que caminham lado a lado há décadas. O diálogo entre a proposta afrofuturista de Davinci e a trajetória de Gallo produz um dos momentos mais marcantes da apresentação, reafirmando a rua como território de invenção, resistência e produção de conhecimento.
Musicalmente, Macumba Jazz talvez proponha algo muito mais interessante do que grande parte da produção musical genérica consumida e impulsionada pela grande mídia. O grupo constrói uma sonoridade híbrida, inquieta, orgânica e profundamente territorial, onde jazz espiritual, hip hop, Terecô e percussões afro-brasileiras coexistem sem hierarquias.

Entre os destaques da noite, as percussões de Riquelme Alves merecem atenção especial. Sua condução rítmica não apenas sustenta o espetáculo, mas o movimenta. Há fluidez, precisão e entrega em sua performance, elementos que fizeram do ritmo uma das grandes forças dramáticas do show. No palco, sua presença foi marcante.

Outro ponto alto da apresentação foi a performance de Davinci no saxofone. Mais do que domínio técnico, o artista demonstra uma relação profundamente sensível com o instrumento. Sua execução carrega intenção, escuta e presença cênica, fazendo com que cada intervenção soe magica. Há momentos em que o sax parece conduzir o transe coletivo, transitando entre o jazz espiritual e as sonoridades ancestrais com naturalidade.

Ao final, "Dominante das Ruas" deixa a sensação de que existem caminhos sendo construídos além das fórmulas estabelecidas pela indústria. E talvez seja justamente nas ruas, nos terreiros e nas margens que estejam surgindo algumas das experiências artísticas mais relevantes da música cearense contemporânea.
Alek Martins é artista da música cearense e diretor criativo. Desenvolve projetos voltados para música, comunicação e cultura, com foco na valorização de produções independentes e narrativas que emergem dos territórios periféricos brasileiros.






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