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ENTREVISTA| Magia e Jailtu falam sobre jornada na dança e coletividade como ferramenta de FUTURO.

Foto do escritor: Estrelinha News
Estrelinha News
11 de ago.
14 min de leitura

Do Cuca Mondubim aos primeiros lugares conquistados em festivais, os artistas atravessam dança, música, performance e audiovisual enquanto preparam um novo capítulo pro coletivo de dança e set 8.


Por Estrelinha News


Fotografia por Caetano.
Fotografia por Caetano.

"Hoje percebemos que o duo Un Village por exemplo também fala desse lugar onde a vulnerabilidade e o riso estão lado a lado."

MAGIA E JAILTU


Magia e Jailtu são artistas multilinguagem, companheiros de vida e parceiros em diferentes frentes da cena cultural de Fortaleza. Desenvolvem pesquisas individuais, integram o grupo musical REAL, são sócios da Casa Cultural Stud!o e atuam na nova fase do e set 8, coletivo que articula dança, performance, direção artística e audiovisual. Quando dividem um processo, porém, não procuram apagar as diferenças. É justamente a bagagem de cada um que dá profundidade ao encontro.



A coreografia de Un Village ainda estava começando quando perceberam, em ensaio, uma energia próxima da palhaçaria. Sem uma conversa prévia ou uma decisão programada, apareceram os personagens, as cores e uma nova relação com o corpo. A melancolia da música se tornou fundo pra uma obra que quer falar de riso e vulnerabilidade.


O espontâneo se tornou a chave de uma obra que levou o primeiro lugar na categoria autoral do Festival de Dança da Juventude 2026. Também sintetizou algo maior: duas trajetórias construídas separadamente, mas que já faziam perguntas muito parecidas sobre presença, interpretação e criação.


“A dança como descoberta” um pouco da trajetória de MAGIA na dança:


A relação de Magia com a arte começou ainda na infância. Antes de compreender o que significava ser artista, ela já dizia que seria atriz. O primeiro contato com a dança aconteceu no balé, na Associação dos Moradores do Conjunto Novo Mondubim, onde também conheceu o jazz e participou de apresentações.


Depois de um período afastada, reencontrou o movimento na adolescência por meio do K-pop. O estudo de coreografias a levou ao Cuca Mondubim e ao grupo Skylight. Mais do que uma sala de ensaio, o equipamento se tornou um espaço de pertencimento e formação humana, onde a dança se conectou a conversas sobre cultura, diversidade, identidade e cidade.


Ao concluir o ensino médio, Magia ingressou no curso de Teatro da Universidade Federal do Ceará. A formação ampliou sua pesquisa sobre corpo, cena e presença. Durante a pandemia, quando o encontro presencial foi interrompido, ela transformou a própria casa em laboratório: estudava movimentos quadro a quadro, gravava, assistia, corrigia, editava e publicava.

Foi nesse período que ganhou força uma investigação que chamou de "minimalismo".


A pesquisa não se limitava ao movimento pequeno; observava como pausas, microexpressões, olhares e mudanças sutis podiam capturar a atenção e produzir humor. Os vídeos alcançaram milhões de visualizações e levaram seu trabalho a novos públicos, mas a experiência também revelou os limites da visibilidade digital. Ser vista, ela aprendeu, não significava necessariamente ser reconhecida como artista.


Sua trajetória passou ainda pelo grupo teatral Grit, por montagens, curtas-metragens, música, moda e produção cultural. Depois de enfrentar crises de ansiedade, depressão e um longo processo de reconstrução pessoal, Magia voltou a compreender a arte como uma necessidade de existência. Em sua narrativa, a síntese é direta: quando deixava de criar, adoecia; quando se movimentava, respirava.


Hoje, a atriz que primeiro apareceu na infância retorna por meio de muitas personagens e pesquisas. Palhaçaria, bufonaria, grotesco, extravagância, moda, dança e música não são caminhos isolados, mas ferramentas para investigar presença e criar encontros verdadeiros com o público.


"Eu sou movimento" um pouco da trajetória de JAILTU DA SILVA na dança:


Para Jailtu, a primeira grande referência foi Michael Jackson. Um DVD com videoclipes do artista apresentou a ele não apenas passos, mas interpretação, figurino, teatralidade e construção de cena. Depois da morte do cantor, Jailtu se afastou da prática, embora nunca tenha deixado de observar e estudar.


O reencontro aconteceu com o K-pop e, especialmente, com o videoclipe de "Dope", do BTS. A estética e a performance despertaram novamente seu interesse. Em 2016, ele passou a ensaiar no Cuca com o amigo Pedro, aprendendo coreografias pelo celular e pesquisando de maneira independente. Ali conheceu artistas como Xorlim e Pin e começou a pensar como coreógrafo antes mesmo de saber nomear esse ofício.


Nos anos seguintes, integrou os grupos cover New Way e Skylight, e em 2018, depois de concluir o ensino médio, intensificou sua dedicação. Passava horas no Cuca, alternando ensaios, cursos, criações e apresentações. Em 2019, o interesse deixou de estar apenas na execução: Jailtu buscava construir identidade corporal, presença e interpretação se aprofundando nas danças urbanas, laboratórios e encontrando novas referências.


Durante a pandemia, os estudos continuaram dentro de casa. Ao investigar direções, planos, formas e musicalidade, ele percebeu que sua dança se acendia quando havia conexão. Para Jailtu, a performance não consiste apenas em executar movimento; é uma maneira de estar vivo, sentir e permitir que o corpo conte uma história.


Mais tarde, as pressões financeiras e as dificuldades de viver de arte o levaram a se afastar. Trabalhou com administração, tecnologia e outros interesses, mas sentiu que a distância da dança também o afastava de si. A volta aconteceu ao lado de amigos como Alek, Magia, Lua, Caio e Bre. Não foi um retorno automático: o corpo havia mudado, a confiança precisava ser reconstruída e a antiga bagagem parecia inacessível.


Jailtu decidiu, então, voltar como aluno. Abriu mão da ideia de que já sabia tudo e recuperou a pesquisa de forma mais paciente e respeitosa. A frase que usa para se definir resume esse percurso: "Eu sou movimento".


Duas pesquisas se encontram em Un Village


Magia carregava a música de Un Village desde 2018. Como em muitos de seus processos, a coreografia começou em um freestyle. Alguns movimentos insistiam em reaparecer e, aos poucos, foram organizados em uma composição. Quando surgiu a oportunidade de participar do Festival de Dança da Juventude, ela convidou Jailtu para o duo.


O material inicial ainda era pequeno. A transformação aconteceu durante os ensaios, quando o gesto brincante trouxe os primeiros sinais da palhaçaria. A partir dali, a obra encontrou personagens, figurino, cores e uma dramaturgia própria.



"Hoje percebemos que Un Village por exemplo também fala desse lugar onde a vulnerabilidade e o riso estão lado a lado", explica Magia.


Jailtu observa que a sintonia não nasceu do acaso. Embora os dois desenvolvessem pesquisas individuais, seus interesses já dialogavam: havia em ambos um lado brincante, performático e aberto à descoberta. Durante a criação, ideias e movimentos se completavam a ponto de nem sempre ser possível identificar onde terminava a proposta de um e começava a do outro.


"Mais do que duas pessoas criando uma coreografia, eram duas trajetórias que, sem perceber, estavam fazendo perguntas muito parecidas sobre a dança", afirma.


O primeiro lugar conquistado com o duo marcou a volta aos palcos depois de um período de afastamento. Para os artistas, a premiação funcionou como uma confirmação: a pesquisa intuitiva e afetiva encontrava reconhecimento público.


Logo depois, Jailtu representou o coletivo ao integrar, por convite do professor Pin, o conjunto avançado de danças urbanas da Escola de Dança Giselle Frota no FENDAFOR 2026. O grupo também conquistou o primeiro lugar o material de apresentação registra ainda o primeiro lugar no Eusébio Arte 2026 e uma apresentação no Viradão da Juventude 2026.



Mais do que os troféus, os resultados fortaleceram a confiança entre os dois. "Aprendemos a reconhecer quando a proposta do outro fortalecia a obra", contam. O processo ensinou a ceder, escutar e abandonar a disputa por espaço dentro da criação. Também mostrou que pesquisa autoral pode gerar oportunidades concretas e sustentar novos caminhos profissionais.


Um novo capítulo para o e set 8


Criado em 2017, o e set 8 reúne dois universos já presentes em seu nome: a contagem "e cinco, seis, sete, oito", familiar à dança, e o set onde o audiovisual acontece. Sua história passa pelas experiências da antiga Wiggo Channel e por anos de pesquisa em movimento, imagem, performance, música e direção.


Agora, o coletivo prepara uma nova fase. As produções audiovisuais em desenvolvimento já acumulam mais de seis meses de trabalho e envolvem elenco, equipe, direção, figurino, pesquisa e diferentes etapas criativas. Para Magia e Jailtu, a demora não representa interrupção, mas amadurecimento.


"Aprendemos que criar coletivamente também significa respeitar o tempo de cada pessoa e permitir que a obra amadureça antes de chegar ao público", explicam.


O retorno não pretende oferecer apenas vídeos de dança. O objetivo é apresentar obras atravessadas por pesquisa, narrativa, presença e identidade. A nova etapa inclui a formação de um elenco e a expansão para apresentações, espetáculos e festivais. Nas plataformas digitais, o desafio será adaptar a linguagem sem permitir que as tendências determinem o trabalho.


"Adaptamos a forma, mas não o posicionamento", afirmam. Para a dupla, existem limites inegociáveis: alcance não justifica associar a imagem do coletivo a trabalhos que não dialoguem com seus valores. Em vez de apenas acompanhar o que está em alta, o e set 8 quer experimentar formatos, propor brincadeiras e construir uma comunidade capaz de reconhecer seu modo próprio de criar.


Criar em Fortaleza e abrir caminhos


Representar o REAL, o e set 8 ou qualquer processo coletivo significa, para Magia e Jailtu, entrar em cena carregando o trabalho de muitas pessoas. Os projetos possuem direções artísticas, mas o elenco também propõe, questiona e transforma as obras. A colaboração não aparece apenas como método: é um posicionamento.


Existe ainda um compromisso direto com Fortaleza. Os dois cresceram ouvindo que seria necessário deixar o Ceará para viver de arte e alcançar reconhecimento. Hoje defendem a circulação pelo país sem abrir mão do fortalecimento da cena local.


Grande parte das pessoas ligadas ao coletivo vem das periferias de Fortaleza. Por isso, cada trabalho também carrega o desejo de criar formação, oportunidades, renda e permanência para quem produz arte na cidade. "Talvez essa seja a missão que mais nos acompanha: descobrir e escancarar portas para quem vem depois", afirmam.


Ao final da entrevista, Magia e Jailtu agradecem à Rede Cuca, que descrevem como escola, laboratório, praça e ponto de encontro; à Wiggo Records, à Casa Cultural Stud!o, ao e set 8, ao novo elenco e aos parceiros que sustentam a caminhada. Citam especialmente Alek Martins, Caio Persan, Faty e Luiz Fernando, além das famílias e das equipes que ajudam a transformar ideias em trabalho.


O agradecimento final é de um para o outro. A parceria, dizem, é construída diariamente com escuta, confiança, afeto e coragem. Se Un Village nasceu quando duas linhas finalmente se encontraram, o que vem agora parece partir da mesma escolha: continuar crescendo lado a lado, sem deixar de preservar a voz de cada um.


Entrevista na íntegra:


Vocês dois constroem trajetórias individuais na dança, na música, na performance e na produção cultural. Como essas experiências separadas influenciam quando se encontram dentro do mesmo processo criativo, como aconteceu em Un Village?


Magia: Acho que Un Village nasce de um encontro que já vinha acontecendo antes mesmo da obra existir. A música me atravessava desde 2018 e, durante muito tempo, ficou amadurecendo dentro de mim. Como acontece na maioria dos meus processos, a coreografia começou em um freestyle. Alguns movimentos insistiam em voltar, então fui entendendo que eles precisavam permanecer e comecei a organizá-los em uma composição.


Quando surgiu a oportunidade de apresentar a obra no Festival de Dança da Juventude, convidei Jailtu para o processo. Ainda existia pouco material criado, mas, durante os ensaios, aconteceu algo que nunca tínhamos parado para nomear. Em um momento de brincadeira, um gesto trouxe uma energia muito próxima da palhaçaria.


A partir dali, sem que a gente precisasse conversar sobre isso, toda a obra mudou de direção. Aqueles personagens simplesmente apareceram. O figurino, as cores, a relação entre os corpos, a forma de interpretar a melancolia da música e de voltar para a brincadeira... Tudo passou a existir a partir dessa descoberta. Hoje percebemos que Un Village também fala desse lugar onde a vulnerabilidade e o riso convivem ao mesmo tempo.


Jailtu: O mais curioso é que isso aconteceu sem planejamento. Cada um vinha desenvolvendo sua pesquisa individualmente, mas, quando nos encontramos, percebemos que nossas investigações caminhavam para o mesmo lugar. As ideias surgiam juntas, os movimentos se completavam e, muitas vezes, um propunha exatamente aquilo que o outro também estava imaginando. Não era coincidência. Nossas pesquisas já dialogavam antes mesmo de dividirmos o processo criativo. Acho que compartilhamos uma mesma forma de criar.


Existe um lado brincante, performático e muito vivo que atravessa os dois trabalhos. A gente não consegue criar sem brincar, rir, experimentar ou permitir que o corpo descubra caminhos durante o processo. Talvez por isso Un Village tenha acontecido de forma tão orgânica. No fim, entendemos que a obra é consequência desse encontro. Mais do que duas pessoas criando uma coreografia, eram duas trajetórias que, sem perceber, estavam fazendo perguntas muito parecidas sobre a dança.


Quando essas pesquisas se cruzaram, nasceu um processo em que não era mais possível identificar exatamente onde terminava a ideia de um e começava a do outro. Era como se duas linhas, construídas separadamente ao longo dos anos, finalmente se encontrassem. Talvez seja isso que Un Village represente para nós: o encontro de duas pesquisas, de duas sensibilidades e de duas almas que escolheram brincar, criar, discordar, aprender e continuar caminhando juntas.


Depois de conquistar o primeiro lugar no Festival de Dança da Juventude com o duo Un Village e, em seguida, o primeiro lugar no FENDAFOR 2026, qual foi o principal aprendizado emocional e artístico que esses resultados trouxeram para vocês enquanto artistas e enquanto casal criativo?


Magia e Jailtu: As duas premiações representaram, antes de tudo, uma confirmação. Depois de um longo período afastados dos palcos, voltar com Un Village e receber esse reconhecimento foi como ouvir um "vocês conseguem". Mais do que um troféu, foi a validação de uma pesquisa artística que nasceu de forma muito intuitiva e afetiva.


Como casal criativo, o principal aprendizado foi a confiança. Durante o processo, percebemos que já não precisávamos disputar espaço para defender nossas ideias. Pelo contrário, aprendemos a reconhecer quando a proposta do outro fortalecia a obra. Muitas decisões surgiram de forma espontânea, sem grandes discussões, como se estivéssemos compartilhando uma mesma imaginação. Isso nos ensinou a ceder, a escutar e a confiar profundamente na sensibilidade um do outro.


Também entendemos que esse reconhecimento amplia as possibilidades da nossa trajetória. Além da dimensão simbólica, as premiações mostraram que é possível transformar pesquisa, criação e dança em oportunidades reais, incentivando-nos a continuar investindo em processos autorais. Mais do que conquistar um primeiro lugar, saímos com a certeza de que vale a pena seguir construindo juntos.


O público vê as apresentações no palco, mas pouco sabe sobre os bastidores. Vocês mencionam que os novos projetos audiovisuais já acumulam mais de cinco meses de construção. O que podem revelar sobre essa nova fase e sobre o que o público deve sentir quando o e set 8 retornar oficialmente às plataformas digitais?


Magia e Jailtu: Essa nova fase tem exigido de nós um aprendizado muito importante: entender que alguns processos precisam de tempo. Os projetos audiovisuais já acumulam mais de cinco meses de construção porque hoje trabalhamos com produções mais complexas, envolvendo elenco, equipe, direção, figurino, pesquisa e diferentes etapas criativas. Aprendemos que criar coletivamente também significa respeitar o tempo de cada pessoa e permitir que a obra amadureça antes de chegar ao público.


O e set 8 nasce de uma história que começou há muitos anos, quando ainda produzíamos conteúdos na antiga Wiggle Channel. Desde então, nossa bagagem artística mudou completamente. Passamos anos pesquisando dança, audiovisual, performance e música, e hoje essas linguagens se encontram de forma muito mais consciente. Se antes já existia vontade de criar, agora existe também profundidade, intenção e embasamento para sustentar cada escolha estética e corporal.


Mais do que assistir a vídeos de dança, queremos que o público encontre obras que carreguem pesquisa, presença e identidade. Cada projeto nasce de um estudo sobre movimento, imagem, narrativa e performance. Nosso desejo é que as pessoas sintam que existe uma história sendo contada por trás de cada detalhe e que possam ser atravessadas por essas experiências tanto quanto nós fomos durante o processo de criação.


Essa nova fase também marca a construção de um novo elenco e a expansão do projeto para além do audiovisual. O público pode esperar novos artistas, novas pesquisas e diferentes formas de encontro, seja nas plataformas digitais, seja em apresentações, espetáculos e festivais. Mais do que um retorno, enxergamos esse momento como o início de um novo capítulo da nossa trajetória artística.


O e set 8 foi reconhecido pela identidade. Em um cenário no qual muitos artistas precisam se adaptar às tendências da internet, como vocês pretendem manter a verdade estética e política do coletivo nesse retorno digital?


Magia e Jailtu: A gente não acredita que exista uma oposição entre pesquisa artística e internet. O desafio está em saber adaptar a linguagem sem abrir mão da identidade. Para nós, existem diferentes formas de comunicar um mesmo pensamento: alguns conteúdos podem dialogar com um público mais amplo e outros podem aprofundar as nossas pesquisas. O importante é que, em qualquer formato, a essência continue sendo a mesma.


Essa clareza sobre quem somos é o que impede que a gente se perca tentando acompanhar tendências. Quando conhecemos profundamente nossa pesquisa, nossos valores e nossa linguagem, conseguimos transformar isso em conteúdos acessíveis sem deixar que a internet dite o nosso trabalho. Adaptamos a forma, mas não o posicionamento.


Também existem limites que são inegociáveis. Não queremos produzir ou associar nossa imagem a trabalhos que não dialoguem com aquilo em que acreditamos apenas porque podem gerar mais alcance. Acreditamos que a verdade do processo é percebida pelas pessoas e que ela constrói uma relação mais duradoura do que qualquer tendência passageira.


Ao mesmo tempo, queremos ocupar o ambiente digital de forma criativa. Mais do que seguir tendências, queremos criar novas possibilidades de linguagem, propor brincadeiras, estimular experimentações e construir uma comunidade que reconheça o coletivo justamente pela sua identidade. Nosso objetivo é que o trabalho seja lembrado não porque acompanhou o que estava em alta, mas porque apresentou um jeito próprio de existir e criar na internet.


Quando vocês entram em um palco, um set de filmagem ou um projeto como o REAL, o que significa representar esse coletivo? Existe um peso, uma responsabilidade ou uma missão específica que acompanha cada movimentação de vocês dentro da arte?


Magia e Jailtu: Representar um coletivo como o REAL ou o e set 8 significa entender que nunca estamos subindo ao palco apenas por nós mesmos. Cada apresentação carrega a pesquisa, o tempo, as ideias e a confiança de muitas pessoas que construíram aquele trabalho junto conosco. Existe, sim, uma responsabilidade de entregar qualidade, mas, acima de tudo, existe o compromisso de manter tudo vivo. Queremos que cada movimento, cada escolha estética e cada cena seja verdadeira, sentida e conectada com quem somos.


Nossos processos são profundamente colaborativos. Embora existam direções artísticas, os projetos são atravessados pelas contribuições de toda a equipe. O elenco participa, propõe, questiona e constrói junto. Acreditamos que as obras ficam mais fortes quando deixam de ser apenas a visão de duas pessoas e passam a refletir a inteligência coletiva de quem está vivendo aquele processo.


Também existe uma responsabilidade muito grande com o lugar de onde viemos. Crescemos ouvindo que, para viver de arte, seria preciso sair do Ceará e buscar reconhecimento em outros centros. É claro que circular pelo Brasil é importante, mas também acreditamos na potência de fortalecer a nossa própria cena. Queremos contribuir para que Fortaleza seja cada vez mais reconhecida como um território de criação, pesquisa e inovação em dança e audiovisual, abrindo caminhos para que outros artistas não precisem partir para acreditar que seus trabalhos têm valor.


Essa realidade influencia diretamente a nossa forma de criar. Justamente por sabermos que artistas do Nordeste muitas vezes ainda precisam provar o seu valor, isso nos faz ser ainda mais rigorosos com cada trabalho. Não queremos fazer qualquer projeto apenas para ocupar espaço. Buscamos construir obras consistentes, com pesquisa, intenção e qualidade, independentemente do tamanho da produção ou da linguagem. Seja um espetáculo, um vídeo, um trabalho comercial ou uma performance, queremos que tudo tenha um motivo para existir e carregue uma identidade própria.


Talvez essa seja a missão que mais nos acompanha: escancarar portas para quem vem depois. Grande parte das pessoas que fazem parte do coletivo vem das periferias de Fortaleza e compartilha o desejo de construir uma trajetória artística possível dentro da própria cidade. Quando subimos ao palco, carregamos esse sonho junto com a gente.

No fim, representar o coletivo é representar uma forma de existir na arte. É defender que pesquisa, afeto, colaboração e presença podem caminhar juntos. Mais do que criar espetáculos ou vídeos, queremos construir uma comunidade onde as pessoas possam experimentar, errar, crescer e descobrir sua própria voz artística.


Agradecimentos e menções:


Magia e Jailtu: Antes de encerrar, gostaríamos de agradecer à equipe da Estrelinha News pelo convite e pelo espaço para compartilhar um pouco da nossa trajetória, dos nossos processos e dos caminhos que estamos construindo.


Também agradecemos à Wiggo Records, à Casa Cultural Stud!o, ao e set 8 e a todo o novo elenco que está fazendo parte dessa caminhada. São espaços que fortalecem a criação, a troca e o aprendizado e que têm sido fundamentais para o crescimento dos nossos projetos.


Um agradecimento muito especial à Rede Cuca, que marcou profundamente a nossa formação. Para nós, ela sempre foi muito mais do que um equipamento cultural: foi escola, laboratório, praça, ponto de encontro e um espaço onde pudemos experimentar, errar, aprender e descobrir quem éramos como artistas. Grande parte do que somos hoje nasceu ali.


Agradecemos também a todas as pessoas que acreditam no nosso trabalho e caminham ao nosso lado: aos artistas, amigos, parceiros, equipes de produção e a todos que dedicam tempo, energia e afeto para que essas ideias saiam do papel. Em especial, agradecemos a Alek Martins, Caio Persan, Fátinha e Luiz Fernandes, que fizeram parte dessa construção.


Nosso desejo é que esses projetos não gerem apenas apresentações, mas também formação, oportunidades, renda e valorização da arte produzida na nossa cidade. Acreditamos que fortalecer um artista é fortalecer toda uma rede de pessoas que cria, pesquisa, trabalha e sonha junto.


Às nossas famílias, obrigado pelo apoio, pela paciência e por acompanharem cada etapa dessa caminhada.


E, por fim, queremos agradecer um ao outro. Nossa parceria vai além da criação artística: ela é construída diariamente com escuta, confiança, afeto e coragem para sonhar junto. Encontrar alguém que compartilhe dos mesmos ideais e caminhe na mesma direção é um presente, e grande parte do que estamos construindo hoje só existe porque escolhemos crescer lado a lado, como artistas e como pessoas.


E a você, leitor, obrigado por acompanhar esse momento da nossa trajetória. Esperamos que esta entrevista seja apenas o começo de muitas conversas. Ainda temos muito para pesquisar, criar e compartilhar, e esperamos encontrar vocês nos próximos trabalhos.



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