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WIIK POP UP | DFB Festival 2026: quando o nordeste ocupa o centro da moda brasileira.

  • Foto do escritor: Revista WIIK Brasil
    Revista WIIK Brasil
  • 18 de jun.
  • 5 min de leitura

Durante muitos anos, o discurso sobre a moda brasileira esteve concentrado entre os grandes centros econômicos do país. Em 2026, porém, o DFB Festival reafirmou algo que Fortaleza já sabe há décadas: alguns dos movimentos mais relevantes da moda nacional nascem longe dos eixos tradicionais.



Realizado entre os dias 9 e 12 de junho, em uma edição especial que integrou a celebração dos 300 anos de Fortaleza, o festival retornou à Praia de Iracema com uma programação que reuniu cerca de 40 desfiles, apresentações musicais, ações de formação e iniciativas voltadas para a economia criativa. O evento reforçou sua posição como uma das principais plataformas da moda autoral brasileira e uma das mais importantes vitrines para novos talentos do país.

Mas, mais do que a grandiosidade da estrutura ou a presença de nomes consagrados como Lino Villaventura, Almir França e David Lee, esta edição ficará marcada pelo fortalecimento de uma narrativa que atravessou diversas passarelas: a “valorização” dos territórios periféricos como espaços legítimos de criação, inovação e construção de futuro.


Fortaleza como protagonista

Sob o tema "Praia de Iracema: coração e cérebro da Cidade Dragão", o DFB transformou a própria cidade na narrativa. Artesanato, memória urbana, cultura popular, sustentabilidade e ancestralidade apareceram não como tendências passageiras, mas como elementos estruturais das coleções apresentadas.

A edição também evidenciou um movimento cada vez mais forte dentro da moda brasileira: o deslocamento do olhar para produções regionais que não buscam validação externa para existir. Em vez de somente reproduzir linguagens importadas, muitos criadores apresentaram trabalhos profundamente conectados aos seus territórios, saberes e comunidades.

Foi nesse contexto que duas estreias chamaram atenção por simbolizarem toda uma geração criativa de Fortaleza: Mancuda e 4Town.




Mancuda: A favela como futuro

Se houve um desfile capaz de sintetizar os debates mais do que urgentes para este festival, foi a estreia da Mancuda.

Fundada em 2020 por Carll Souza e Nair Beatriz, a marca nasceu na periferia oeste de Fortaleza, em meio à pandemia, inicialmente como uma estratégia de sobrevivência diante da redução das bolsas universitárias e da instabilidade econômica enfrentada por jovens estudantes.

Poucos anos depois, a marca chega a um dos principais palcos da moda autoral brasileira sem abandonar suas origens. Ao ocupar esse espaço, desafia uma estrutura eurocêntrica antiga e exigente que, por muito tempo, ignorou, esqueceu e ainda esquece, literalmente, dos nomes responsáveis por criar a moda que realmente importa. Sem pedir licença, a marca apresenta um verdadeiro espetáculo de criatividade popular, mostrando ao vivo a força criativa da periferia cearense.


Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Apresentando a coleção "Favelawear", a Mancuda transformou a passarela em um manifesto sobre pertencimento, memória e futuro. O conceito desenvolvido pela marca propõe um "futurismo cearense" construído a partir das experiências cotidianas das periferias, rejeitando referências tecnológicas importadas e valorizando os repertórios visuais produzidos nos territórios populares.

A ELLE destacou como a coleção direcionou o olhar para as comunidades periféricas cearenses através de elementos profundamente conectados ao imaginário urbano local, como bermudas de veludo, bonés em crochê e chinelos, criando uma estética que dialoga simultaneamente com moda, território e identidade.


A Mancuda apresentou muito mais que uma coleção, defendeu uma tese: a periferia não deve ser usada apenas como fonte de inspiração para a moda, mas reconhecida como principal fonte de conhecimento, linguagem e inovação.


Mancuda (Foto: Nicolas Gondim)
Mancuda (Foto: Nicolas Gondim)

Ficha Técnica — Mancuda | Favelawear

Direção Criativa: Carll Souza (@1meninosereia) e Nair Beatriz (@nairbeatrx)Styling: Wesley Farias (@fwess_)Assistência de Styling: Mariana Mota (@avimarianam), Gleice de Souza (@gleicedesouza) e Rebeca Eloi (@rebecaeloi)Trilha Sonora: Fixter da Play (@fixterdaplay)Identidade Visual: Da Seita (@daseita7)Fotografia: Sandy Falb (@sandyfalb) e Caio Alves (@caioalvx)Videomaker: Mateus Lx (@mateuxlx) e Giovanna Lara (@giovannalarar)Apoio Óculos: Tangerine Óculos (@tangerineoculos)Apoio Acessórios: Unid Unite Tee (@unidunitetee) e Meraki (@usemer4ki)



4Town: A rua sempre será a passarela que importa.

Outra estreia aguardada foi a da 4Town Streetwear.

Representando uma geração formada nas ruas de Fortaleza, a marca levou ao DFB uma linguagem construída a partir da cultura urbana, da música, do esporte e dos movimentos periféricos que moldam o cotidiano da juventude cearense.


A coleção apresentou referências do punk, grime, sportswear, afro-reggae e ancestralidade brasileira traduzindo para a passarela uma estética que já existe há muito tempo nas ruas, mas que raramente ou nunca ocupam (sem agressões, higienismo, desrespeito e descaracterização) os espaços centrais da moda institucionalizada.


4town, reprodução site: Cara Fashion
4town, reprodução site: Cara Fashion

O que torna a participação da 4Town o ponto alto da edição é sua capacidade de tensionar uma fronteira histórica entre moda de rua e moda de passarela.


Enquanto durante décadas o streetwear foi frequentemente absorvido por grandes marcas após surgir nas periferias, a 4Town faz o movimento contrário: leva a própria periferia para dentro da passarela, sem suavizar sua linguagem e sem diluir sua identidade para atender expectativas externas, com tecnologia, símbolos, e excelência.


Sua presença no line-up reforça uma mudança importante no DFB: a abertura para narrativas independentes que representam as dinâmicas reais e culturais do Nordeste contemporâneo.


Ficha Técnica — 4Town Streetwear | NA PASSARELA DE ASFALTO TODO DIA TEM DESFILE DA 4TOWN.

Direção Criativa, Estilismo e Styling: Deyse Herle (@deyseherle) e Função (@soufuncao_4ts)

Colaboração Criativa de Estilismo e Styling: Wendy Candy (@wendycandyr)

Digitalização de Croquis: Dan Maurício (@dan.mauricio) e Renan Zeth (@renanzeth)

Objetos de Direção de Arte: Renan Zeth (@renanzeth), Oficina Oggin (@oficinaoggin), Gih Cruz (@giihcruz.8), Deyse Herle (@deyseherle), Yuri DPT (@yuridpt) e Tio Velez (@tiovelez)

Confecção e Costura: Mariana Mota (@avimarianam) e Isadora Lima (@isadoorali)

Produção Executiva: Pexera (@pexera___), Hanna Moura (@hanna_moura) e Função (@soufuncao_4ts)

Produção: Função (@soufuncao4ts), Deyse Herle (@deyseherle), Luiz Oli (@luiz_oli), Hanna Moura (@hanna_moura) e Wendy Candy (@wendycandyr)

Audiovisual: Quinze.Vinte (@quinze.vinte), Lumozada (@lumozada), Muli Roda Paz (@mulirodapaz), Ícaro Gomes (@icarogomes_), Luiz Oli (@luiz_oli) e Targinou (@targinou)

Apoio: Instituto Dragão do Mar (@institutodragaodomar), Pexera (@pexera___), Instituto Iracema (@institutoiracema), Secult Fortaleza (@secult), Cultura de Fortaleza (@culturadefortaleza), Prefeitura de Fortaleza (@prefeituradefortaleza), Quinze.Vinte (@quinze.vinte), Kenner (@kenner) e Santana Textiles (@santanatextiles).



Os outros destaques do festival

Embora Mancuda e 4Town simbolizem um dos movimentos mais interessantes da edição, diversos outros desfiles ajudaram a consolidar o alto nível criativo do evento.

A Casa Aika estreou apresentando uma coleção marcada por volumes amplos, linho e referências afetivas ligadas à ancestralidade nordestina.

David Lee apresentou uma leitura contemporânea das festividades sertanejas, combinando crochê, bordados florais e elementos artesanais em uma coleção que reafirmou sua importância para a moda cearense.

O projeto 100% CeArt destacou a potência do artesanato local ao reunir criadores de diversos municípios do Ceará, evidenciando técnicas tradicionais e materiais regionais em diálogo com o design contemporâneo.

Já nomes como Silvânia de Deus, Ethos, George Azevedo e J. Cabral reforçaram o compromisso histórico do DFB com a diversidade de linguagens e com a valorização de trajetórias construídas fora dos grandes centros do Sudeste.


Reprodução instagram: @dfbfestival
Reprodução instagram: @dfbfestival

O legado de 2026

Se em outras edições o DFB já se consolidava como uma plataforma da moda autoral brasileira, em 2026 o festival parece ter dado um passo além.

A edição dos 300 anos de Fortaleza mostrou que o futuro da moda brasileira pode estar menos ligado à busca por referências globais e mais conectado à valorização dos territórios que historicamente produziram cultura, mas raramente ocuparam os espaços de legitimação social.

Nesse cenário, as estreias da Mancuda e da 4Town não representam apenas novos nomes no line-up.

Representam uma mudança de eixo.

Talvez de uma moda que nasce, dialoga com a comunidade, valoriza sua própria linguagem e chega à passarela sem pedir licença.

Talvez mais uma vez esse tenha sido o principal desfile do DFB 2026:

O desfile pra dentro da moda brasileira.

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