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PAPO POP: Ariana Grande “odeia ter feito você amá-la”

  • Foto do escritor: Lwa Malim
    Lwa Malim
  • 16 de jun.
  • 2 min de leitura

Durante décadas, a indústria pop vendeu uma fantasia confortável: a de que artistas existem para serem amados. Quanto mais amados, melhor. Mas no leadsingle do seu próximo álbum "Hate That I Made You Love Me", Ariana Grande faz uma afirmação desconfortável sobre sua relação com a indústria pop: Odeio ter te feito me amar.


Reprodução: Internet
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A faixa surge em um momento curioso da carreira da cantora. Após anos sendo transformada em símbolo de superação, de feminilidade, de perfeição estética e até de escândalo, Ariana parece olhar para a própria imagem pública como quem observa uma construção feita por outras pessoas.


Quando canta "Why is it really my fault you all gave me your hearts?", ela não está rejeitando seus fãs. Está questionando um fenômeno muito maior: a expectativa de que celebridades sejam responsáveis pelas fantasias que o público projeta nelas.


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Ariana sabe que a cultura pop moderna é movida por identificação. O público não consome apenas música; consome personalidades, narrativas e versões idealizadas de artistas (em busca delas mesmas). O problema começa quando essa identificação se transforma em posse.


"Hate That I Made You Love Me" é fascinante porque desloca a conversa do amor para a projeção. Em vez de cantar sobre um coração partido, Ariana sugere que muitas pessoas se apaixonaram por uma personagem. Uma personagem construída pela mídia, pelos fãs e pela própria máquina da indústria do entretenimento.


Reprodução: Internet
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Existe também um aspecto particularmente feminino nessa discussão. Mulheres no pop frequentemente são elevadas a pedestais impossíveis de sustentar. São celebradas por sua beleza, vulnerabilidade e autenticidade até o momento em que essas características deixam de corresponder às expectativas do público. Então a admiração rapidamente se converte em cobrança e descaracterização do ser humano por trás das cortinas.


Nesse contexto, a aparente arrogância da música funciona como ironia. Quando Ariana diz que "mal tentou", não parece estar se colocando acima dos outros. Parece estar expondo o absurdo de ser responsabilizada por sentimentos que nunca prometeu corresponder.


Reprodução: Internet
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Talvez o aspecto mais interessante da faixa seja justamente sua recusa em oferecer conforto. Ela não pede desculpas, não busca redenção e tampouco tenta restaurar a conexão emocional com quem a escuta. Pelo contrário: estabelece distância.


Em uma era em que artistas são incentivados a compartilhar cada detalhe de suas vidas para manter relevância, "Hate That I Made You Love Me" soa como um movimento contracorrente. Não sobre ser amada, mas sobre o direito de existir além do amor que os outros projetam.


E talvez seja exatamente por isso que a música incomoda tanto. Porque ela nos obriga a encarar uma pergunta que a cultura pop raramente faz:

Será que amamos nossos ídolos ou apenas as histórias que inventamos sobre eles? No caso de Ariana, ela já não se importa.



Texto por: Lwa Malim


Lwa Malim é artista, compositora e dançarina,  mulher trans nascida em Fortaleza, com trajetória construída a partir das vivências e formações desenvolvidas nos espaços da Rede Cuca. Influenciada por movimentos contemporâneos da música global e pela nova cena brasileira, desenvolve uma identidade artística que atravessa diferentes culturas, sonoridades e linguagens sem perder a conexão com suas próprias raízes.

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