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ENTREVISTA| Wendy Candy tensiona corpo, fé e permanência em “PURA: Santa Puta”

Foto do escritor: Estrelinha News
Estrelinha News
25 de set.
7 min de leitura

ESTRELINHA NEWS | ENTREVISTA Na exposição coletiva “Confluências”, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, a artista apresenta uma obra construída entre o gesso, o pixo e a performance para confrontar os limites impostos à feminilidade, à existência trans e ao direito de permanecer.

Por Estrelinha News


“O manifesto é o que guia esse corpo ao desejo de ficar, permanecer e evoluir.”

WENDY CANDY

fotografia de Luiz Fernando
fotografia de Luiz Fernando

Wendy Candy entra no Museu de Arte Contemporânea do Ceará carregando a rua, a ambiguidade e o desejo de continuar viva. Em “PURA: Santa Puta”, a artista reúne manequins brancos com sobreposições moldadas em gesso interligadas por linhas, performance e uma intervenção de pixo realizada por Guilherme Carvalho, vulgo Função, fundador da marca 4TOWN. A obra parte do manifesto “PERMANECER viva para ser feliz mais uma vez” e transforma a permanência em gesto artístico, político e íntimo.


A frase conduz um corpo que reconhece o cansaço de existir sob estruturas que tentam controlá-lo, mas ainda deseja ficar. Permanecer, na obra de Wendy, não significa aceitar passivamente aquilo que está posto. É construir um lugar seguro para si, ocupar espaços antes negados e sustentar a possibilidade de ser feliz novamente.


fotografia de Geovanna Santos
fotografia de Geovanna Santos

A delicadeza da cena encontra a radicalidade do spray. A aparente tranquilidade da instalação é interrompida pelo pixo, que introduz uma presença urbana dentro do museu e reafirma uma linguagem muitas vezes criminalizada como parte legítima da arte contemporânea. Nesse encontro, Wendy continua uma pesquisa iniciada em 2024 com “PROCURA-SE”, também realizada em parceria com Função.

A obra marca a estreia de Wendy nas artes visuais e integra “Confluências”, exposição coletiva apresentada no MAC-CE. O título da mostra se relaciona ao pensamento de Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, uma das referências de Wendy para compreender que os processos não se organizam necessariamente entre começo e fim. Na confluência, tudo pode ser começo, meio e começo novamente.

É a partir desse princípio que os corpos de “PURA: Santa Puta” recusam uma forma definitiva. Os moldes em gesso existem na construção, permanência e ruína. Não representam uma feminilidade concluída. Expõem um corpo que continua se formando enquanto enfrenta as imposições de um sistema patriarcal.


Permanecer viva para ser feliz outra vez:


O manifesto “PERMANECER viva para ser feliz mais uma vez” nasceu como uma oração e se tornou a direção central da obra. A frase não esconde a dor ou o esgotamento. Wendy reconhece que estar aqui dói e cansa, mas posiciona o desejo de ficar diante dessas experiências.


Permanecer não aparece como uma certeza confortável. É uma decisão refeita diariamente. A artista constrói essa decisão por meio de um corpo que ocupa, evolui e procura criar segurança para outras pessoas, sem abandonar a necessidade de também construir proteção para si.

Essa tensão organiza a performance. De um lado, existe a sensibilidade de quem deseja continuar vivendo; do outro, o gesto radical de firmar esse desejo com autenticidade dentro de um espaço institucional. O pixo atravessa a obra como grito. Sua presença rompe a serenidade visual da instalação e declara o desejo de permanecer, ainda que seja a força.


A obra não romantiza a sobrevivência. Wendy trata a permanência como uma experiência contraditória: uma escolha atravessada por cansaço, dor, esperança e vontade. Continuar viva torna-se uma ação política porque permite imaginar e dar referência de outras felicidades possíveis.


fotografia de Geovanna Santos
fotografia de Geovanna Santos

A santa e a puta:


“PURA: Santa Puta” aproxima palavras historicamente tratadas como opostas. Pureza e putaria, santidade e profanação, devoção e desejo ocupam o mesmo título sem que uma dimensão precise anular a outra.


Wendy explica que a obra não pretende oferecer uma revelação definitiva sobre essa dualidade. Seu interesse está em tensioná-la. A artista parte de duas personas, Wendy e Rebeca, imagens construídas por ela mesma, para investigar as diferentes formas pelas quais uma identidade pode ser apresentada, percebida e transformada.


A ambiguidade entre o sagrado e o profano acompanha sua pesquisa artística. Em vez de escolher um dos lados, Wendy ocupa o espaço instável entre eles. A obra devolve ao público as perguntas: o que significa ser puta? O que define alguém como pura? Quem possui autoridade para estabelecer essa separação?


Essas categorias carregam uma longa história de controle sobre os corpos e, particularmente, sobre a feminilidade. A mulher pura é construída como aquela que obedece, enquanto a puta aparece como o corpo que ultrapassa os limites definidos para ela. Wendy aproxima as duas imagens para mostrar que essa divisão não consegue conter a complexidade de uma existência.

A santa e a puta podem habitar o mesmo corpo. A autoafirmação surge justamente quando a artista deixa de procurar uma forma única, estável ou socialmente aceitável para existir. VIDEO PERFORMANCE:


“PURA: Santa Puta” marca a primeira participação de Wendy em uma exposição no Museu de Arte Contemporânea do Ceará. Para a artista, realizar uma ativação levando a rua como elemento tornou a experiência ainda mais significativa.


Wendy compreende esse momento como parte de uma caminhada iniciada antes de sua entrada no museu. A performance não representa uma chegada isolada, mas a continuidade de uma pesquisa desenvolvida em outros espaços, encontros e linguagens.


Ao ocupar o MAC-CE como uma artista trans, acompanhada por uma equipe formada também por outras pessoas trans e artistas ligados às periferias e à cultura urbana de Fortaleza, Wendy inscreve no espaço institucional corpos e práticas historicamente afastados desses ambientes.


A presença não apaga as contradições da instituição. Ela registra que aquele corpo esteve ali, construiu uma obra, produziu memória e deixou uma marca. Para Wendy, pensar que esse momento permanecerá na história do espaço é emocionante porque se relaciona diretamente ao princípio que guia toda a obra: continuar, ocupar e permanecer.


Uma obra construída coletivamente:


Embora “PURA: Santa Puta” parta da pesquisa de Wendy Candy, sua realização também carrega o trabalho de uma equipe. A artista agradece a Alek, Magia, Jailtu, Luiz Fernando, Função e Alvin, responsável pela criação de uma trilha exclusiva para os trabalhos visuais que foram lançados.


O agradecimento mais íntimo é dirigido a Ariel, parceira de Wendy na execução da instalação. As duas moldaram juntas todos os corpos apresentados na obra. Para Wendy, pensar que duas pessoas trans participaram diretamente da construção dessas formas amplia o sentido da ocupação.


São pessoas trans produzindo a materialidade da obra, decidindo como esses corpos serão moldados e construindo com as próprias mãos a imagem que ocupará o espaço institucional.

A obra fala sobre permanecer e também registra quem tornou essa permanência possível. Cada molde, marca e intenção carrega uma experiência coletiva.


Entrevista na íntegra


“PURA: Santa Puta” parte do manifesto “PERMANECER viva para ser feliz mais uma vez”. Como essa frase atravessou o seu corpo e a sua presença durante a performance no MAC-CE?


Wendy: Acredito que o manifesto é o que guia esse corpo ao desejo de ficar, permanecer e evoluir. É sobre construir um lugar seguro não apenas para outras pessoas, mas principalmente para si; ocupar da melhor forma, existir e viver.


O desejo e a oração que nos guiam por mais um dia, para que sejamos felizes, foram o que me atravessou. Estar aqui dói e cansa. Por isso existe essa linha tênue na performance com o pixo, trazendo a radicalidade para uma obra tão sensível e posicionando o desejo e o grito de querer ficar, nem que seja por apenas mais um dia.


O título “PURA: Santa Puta” aproxima duas imagens historicamente colocadas como opostas. O que esse choque de palavras busca revelar?


Wendy: A obra não busca revelar, mas tensionar essa dualidade. Brincamos com inúmeras coisas, começando pelas personas Wendy e Rebeca, duas imagens que foram moldadas por mim mesma.


A obra também se conecta à ideia de autoafirmação e à ambiguidade entre o sagrado e o profano, que é o que guia o meu trabalho. Ficam os questionamentos: o que é ser puta? O que é ser pura?


Os corpos moldados em gesso aparecem como formas instáveis, entre permanência e ruína. Em cena, como foi construir a imagem de um corpo que nunca se encerra em uma forma final?


Wendy: A obra conversa com a ideia de confluências de Nêgo Bispo, quando ele fala que não existe fim, que tudo é começo, meio e começo. Isso se conecta à ideia de que o rio não tem um ponto final.


A obra tensiona esses questionamentos sobre a construção do que é ser mulher ou, principalmente, sobre a construção da feminilidade, que é tão adoecedora dentro de um sistema patriarcal.


A intervenção de pixo realizada por Guilherme Carvalho, da 4TOWN, introduz uma marca urbana sobre a obra. O que o encontro entre o pixo e “PURA: Santa Puta” revela?


Wendy: Eu e Guilherme, conhecido como Função, somos artistas muito diferentes, mas nos encontramos por meio da rua como linguagem principal. Eu precisava tensionar a radicalidade do pixo nessa obra, dando continuidade à nossa pesquisa de 2024, “PROCURA-SE”.

Era muito importante para mim ter Guilherme pixando dentro do MAC por inúmeras razões. A obra traz uma atmosfera tranquila e, para além da discussão da lata de spray dentro da arte contemporânea, eu precisava que existisse um caos instaurado, posicionando e afirmando o pixo também como arte.


A performance aconteceu dentro do Museu de Arte Contemporânea do Ceará, um espaço institucional de arte. Que tipo de relação você acredita que “PURA: Santa Puta” provoca ao ser um corpo dissidente e uma intervenção de pixo dentro desse ambiente?


Wendy: Acho que damos continuidade a uma caminhada que já vem acontecendo. De alguma forma, acredito que aquele momento ficará marcado.

Para mim, foi muito emocionante participar da minha primeira exposição no MAC-CE e fazer uma ativação levando a rua como ponto principal. Ali é sobre continuidade e sobre permanecer. Isso é lindo quando penso.Religião, imagem e realocação


Wendy: Acho importante pensar a religião não como ponto de partida ou de chegada, mas como realocação. Utilizo o imaginário cristão para criar as minhas obras. Não construo a partir dele; encaixo-me e me realoco dentro desse imaginário.

Isso é muito importante quando penso que sou excluída de uma religião que não me aceita por questões de gênero.


Agradecimentos e menções


Wendy: Quero agradecer imensamente a toda a equipe que esteve comigo: Alek, Magia, Jailtu, Luiz Fernando, Função e Alvin, que criou uma trilha exclusiva para os trabalhos visuais.

Agradeço especialmente a Ariel, que foi minha parceira na execução dessa obra, moldando comigo todos os corpos. Toca-me pensar que foram duas pessoas trans fazendo isso e ocupando esse lugar.

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